Existe um certa ideia romantizada
de como um escritor escreve. Muitas pessoas imaginam que cem por cento da boa
escrita decorre da inspiração.
Há duas coisas a serem ditas a respeito:
primeiro, o que é boa escrita? O conceito é absolutamente subjetivo. Algo pode
agradar a mim e não a você. Segundo, a
inspiração em muitos casos não chega nem a cinquenta por cento do trabalho.
Obviamente
é preciso ter uma ideia para a escrita, essa ideia pode ser inspirada em
diversas situações e podem acontecer insights fantásticos, porém, o trabalho árduo consiste
a maior parte do processo.
Eu, sinceramente, nunca acho que
escrevi um bom texto. De verdade. Sempre que quiser revisar vou encontrar uma
forma de reescrever, de melhorar, arrumar gramática e pontuação.
Acontece que em muitos casos eu
nem quero mais reler aquilo e paro nas primeiras revisões, mas se quisesse
melhorar ou repaginar qualquer texto poderia fazer isso ao reler umas vinte
vezes e em cada uma delas mudaria uma ideia, trocaria um parágrafo, mexeria na
pontuação para dar maior clareza, enfim, são inúmeras a possibilidades.
Ocorre que nem sempre tenho
tempo, disposição e energia para reler e revisar os textos. Acaso tivesse,
todos os meus textos seriam revisados creio que umas cinquenta vezes antes de ser mostrado.
É por
esse motivo que as palavras são jogadas como quem joga milho as galinhas. A organização
é feita posteriormente, ou por mim ou pelo editor e revisor nos casos dos
livros, mas, ainda assim, encontramos erros após a impressão, isso faz parte do
processo.
A questão é: se você ficar preso
a perfeição para fazer ou deixar de fazer alguma coisa, o mais provável é que
não faça nada. Se eu fosse esperar o melhor momento para publicar no Blog e participar
dos livros, não teria feito isso até hoje, pois, simplesmente não há melhor
momento, não existe melhor texto, não há melhor escrita. Há trabalho e esse
sempre poderá ser melhorado caso você queira melhorar.
Costumo deixar alguns textos na
gaveta e depois reler e arrumar, podar, aparar o que é necessário. No dia em
que escrevo provavelmente não verei muitas coisas que poderiam ser melhoradas,
ainda que sejam óbvias.
Antigamente a minha gaveta era
literalmente uma gaveta, com anotações em cadernos etc. Hoje é o computador que
guarda meus escritos e o Blog também virou uma grande gaveta ou arquivo. A princípio
pensei que somente teria ali um local para deixar minhas coisas, porém, com o
tempo esse enorme arquivo foi sendo acompanhado por outras pessoas.
O interessante é que muitos
textos antigos meus eu revejo e reescrevo, mas, a princípio eles vão para o
blog como antes iam para a gaveta, quase sem revisão. Quando estou numa outra
vibe revisito e arrumo o que tiver que arrumar.
Esse texto mesmo que escrevo
agora, ele será “engavetado” aqui no Blog da Ana praticamente sem revisão,
apenas da forma que veio a mente. Tempos depois eu venho até ele e arrumo algo
aqui, outra coisa acolá, até que fique melhor um pouco.
Na verdade, nunca acho que está
bom o suficiente, assim como também não me acho uma escritora. Acredito que a
cada texto me torno um pouco escritora, é o meu objetivo, meu alvo. Em essência
sempre fui escritora, mas é a prática que nos dá a maestria para realizar
esse sonho de transformar palavras em histórias. E assim vou me tornando aquilo que pretendo ser. {Esse parágrafo, também, certamente será melhorado posteriormente, sei que consigo deixá-lo melhor, mas não agora, nessas primeiras revisões ou no exato momento em que o escrevo}
Esse texto é o maior exemplo
disso que digo. Não fiquei atenta a pontuação, gramática e quebra de parágrafos
ao escrevê-lo, apenas coloquei no papel as ideias.
A organização delas também
foi em livre demanda, conforme surgiam eu ia escrevendo. O fiz com base
puramente na inspiração.
Mas, apesar disso, é o trabalho da revisão, da reorganização
das ideias e lapidação do texto que o fará um bom texto no futuro. Por agora é
apenas um registro de algumas ideias. Gosto que seja assim, pois a organização
demasiada e a estruturação anterior podam um pouco a escrita criativa.
Por outro lado, há dias que as
ideias são previamente estruturadas e existe um roteiro mínimo a seguir antes
de começar a escrever. Confesso que esses não são meus dias preferidos, gosto
mais da livre demanda mesmo, sentar e escrever quando a inspiração chega.
Em todo
caso, programando ou obedecendo a livre inspiração, gosto de acolher as palavras
que tenho dentro de mim e plantar cada uma delas nesse jardim que rego com
tanto amor.
Plantar palavras e colher
escritos, poemas e canções é o que floresce a minha alma.
Fazer o que amamos é o principal
ingrediente para a inspiração. Nunca escrevi para ninguém, sempre falei sobre
coisas que gosto ou gostava no momento em que escrevia. Mesmo os poemas
inspirados em situações ou pessoas eles foram registrados para o meu deleite e
isso acredito ser a principal ferramenta dessa arte.
Fazer o que gosto é o principal
motivo de fazer. Todas as vezes que pensei em mudar alguma coisa para agradar
ou não desagradar alguém o texto ficou uma bela bosta, pois ele estava viciado,
havia perdido o que era meu, a minha essência.
Os melhores textos, poemas ou
qualquer ordem de escritos meus são aqueles que a minha alma pode ser vista
enquanto é lido. É exatamente por esse motivo que não gosto de ler nada em
público, com minha própria voz, pois é como se estivessem me ouvindo despida.
Já cometi o erro de tentar
agradar ou não querer desagradar e modificar ou adaptar textos, porém, cada vez
que fiz isso foi a minha morte.
A alma do poeta é o que ele tem de mais
precioso e deve ser intacto para uma boa criação. Se a alma está sofrendo, a
dor será sua matéria-prima, se há amor, esse será o elemento principal para a
feitura de sua arte.
Respeitar a si mesmo é o principal ingrediente para o
sucesso na escrita. Não o sucesso para os outros, mas para você mesmo.
Ana Paixão

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